A Bahia perdeu, nesta sexta-feira (16), uma de suas baianas mais famosas. Lindinalva de Assis, a quituteira Dinha do acarajé, sofria de diabetes e hipertensão. O corpo foi enterrado à tarde, no Cemitério Jardim da Saudade.
Além de amigos e parentes, admiradores da baiana foram prestar as últimas homenagens. ‘Você vai, mas deixa uma lacuna muito grande’, desabafou o cantor Ninha durante o velório. Para o filho da baiana, Edvaldo Cruz, a maior lembrança que vai ficar da mãe é a ‘pessoa honesta que ela sempre foi’.
Dinha chegou a ficar internada por seis dias no hospital com sintomas de falta de ar e virose. Ela chegou a receber alta quinta-feira (15) à tarde, mas na madrugada de hoje, teve uma parada cardíaca e morreu aos 56 anos.
A quituteira começou a trabalhar aos 7 anos de idade como ajudante da avó, que em 1944 escolheu o bairro do Rio Vermelho para montar o primeiro tabuleiro da família Assis.
Aos 10 anos, com a doença da avó, Dinha assumiu o posto, e durante quatro décadas se tornou uma das figuras mais famosas do folclore baiano.
Dinha se orgulhava de ter criado os oito filhos com a renda do acarajé. Ela chegava a vender cerca de 700 bolinhos por dia, sempre com um sorriso no rosto.
Um pouco de história…
A baiana do acarajé é uma herança do candomblé. Antigamente, dentro dos preceitos como filhas-de-santo, elas saiam para mercar de porta em porta, em pregões noturnos pelas ruas de Salvador. De tabuleiro na cabeça, soltavam a voz para que as pessoas dentro das casas pudessem ouvi-las.
Com o passar do tempo, a venda ambulante foi sendo substituída pelos pontos fixos, nas esquinas das vias públicas. As baianas chegavam à tardinha, com os tabuleiros, apetrechos e a massa de feijão fradinho para fritar os acarajés no azeite de dendê, usando fogareiros a carvão.
Os abarás eram levados prontos, feitos em casa, onde também preparavam um molho especial, complemento indispensável, de pimenta malagueta cozida no camarão seco.
No Rio Vermelho, as baianas também surgiram como ambulantes. Mercavam pelas ruas e largos onde ficavam as casas dos veranistas, que eram as pessoas da freguesia certa. A primeira com tabuleiro fixo foi a avó de Dinha, que deu fama ao ponto e se transformou numa celebridade nacional.
UBALDINA, A PIONEIRA
Após ter trabalhado em várias residências no Rio Vermelho, a afamada cozinheira Ubaldina de Assis, especialista nas iguarias do cardápio afro-baiano, resolveu estabelecer-se com um tabuleiro de baiana.
O local escolhido possuía status de “capital da república” do Rio Vermelho. Nele pulsava o coração do bairro, com o coreto, a igreja, e os mais destacados estabelecimentos comerciais do antigo balneário.
Ubaldina colocou o tabuleiro no Largo de Santana em 1944, bem defronte à entrada principal da Igreja-Matriz, na calçada de uma padaria encostada no prédio que tinha abrigado o Hotel Centro Recreativo, agora ocupado por moradores fixos e com uma casa comercial no térreo. Foi o primeiro tabuleiro de acarajé a surgir no Rio Vermelho, enterrando um velho preconceito de que “comer na rua era coisa de gente sem educação doméstica”.
RUTE DE ASSIS
Rute de Assis, filha de Ubaldina, que ajudava a mãe desde a inauguração do tabuleiro, teve uma menina em 20 de maio de 1951. O parto foi na maternidade do Hospital das Crianças Alfredo Magalhães, localizado no Rio Vermelho, que logo depois ganharia um novo pavilhão, denominado Maternidade Nita Costa.
filha de Rute foi registrada como Lindinalva de Assis, mas em casa ficou sendo simplesmente Dinha. Em 1955 uma tragédia abalou a família Assis. Um acidente de trânsito, na Boca do Rio, tirou a vida de Rute, obrigando Ubaldina a retornar ao comando do tabuleiro no Largo de Santana.
Ubaldina assumiu também a criação da neta de quatro anos, que, aos sete, passou a acompanhá-la na labuta diária no largo. O contato com o público apressou o seu desenvolvimento, que adquiriu ares de uma impressionante precocidade.
Demonstrando também grande vocação culinária, foi aprendendo rapidamente os segredos da cozinha baiana, uma riqueza cultural das mais opulentas, com raízes nas práticas religiosas dos africanos, notadamente sudaneses.
DINHA, A MENINA PRODÍGIO
Em 1961 Ubaldina adoeceu e teve de afastar-se do tabuleiro, estrangulando o canal da sustentação familiar. Sentindo o drama na pele, Dinha, então com dez anos, fez uma coisa que deixou os adultos perplexos: após quinze dias de ausência, o tabuleiro reapareceu no largo sob a sua batuta.
A pequena Dinha teve a ajuda de parentes para transportar os utensílios, mas a massa para os acarajés e abarás foi preparada por ela mesmo, que havia assimilado todos os ensinamentos da avó, grã-mestra do Rio Vermelho.
A baianinha que sabia fazer e vender as iguarias, vista no início com incredulidade, ganhou o respeito e a confiança do público. Virou atração no final das tardes e início das noites, competindo em pé de igualdade com Roxinha e Bernarda, baianas conceituadas que haviam se estabelecido no Largo de Santana. Em face do êxito, seis meses depois, com a saúde plenamente restabelecida, Ubaldina não quis reassumir o posto, deixando-o definitivamente sob a responsabilidade da neta pródiga.
DINHA CONQUISTA OS FAMOSOS
A menina-moça virou adulta e consolidou o conceito de baiana exímia. Legiões de clientes, de todas as partes da cidade, dirigiam-se ao Rio Vermelho unicamente para conhecer seus quitutes. Experimentavam e viravam fregueses habituais.
Gente de fora da Bahia também chegava, atraída pelas informações repassadas de boca a boca. Pessoas de projeção, principalmente no meio artístico, passaram a ser levadas ao Rio Vermelho para degustar o melhor acarajé da Bahia. Luis Vieira, Chico Buarque, Dercy Gonçalves, Chacrinha e Suzana Vieira foram alguns de uma lista enorme.
Na adolescência o ídolo de Dinha era um cantor-galã da Jovem Guarda. Um dia, chegou um freguês e perguntou: Dinha, você conhece este aqui? Ao suspender a vista, deu de cara com o Jerry Adriani. A emoção foi tanta que a fã desmaiou, tendo sido socorrida por um médico que estava na fila do tabuleiro.
Depois desse episódio, Dinha acostumou-se a lidar com os famosos que repentinamente surgiam na sua frente, tais como Airton Sena, Emerson Fittipaldi, Jorge Benjor, Lulu Santos, Lobão, Marília Gabriela, Washington Olivetto, Regina Casé, Rubens Barrichello, etc.
Antes de conhecerem o sucesso profissional, passaram pelo seu tabuleiro dois adolescentes do Rio Vermelho, o Vieira, apelido do Antônio Carlos (parceiro de Jocafi) e Nizan Guanaes, este último um dileto amigo, até hoje. Dinha também se refere com muito carinho quando fala de Jorge Amado, Zélia Gattai, Carybé, Pierre Verger, Dorival Caymmi, Mário Cravo, Capinan, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Luis Caldas, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Bel Borba, Márcio Melo, Josinha Pacheco, Lícia Fábio, Guilherme Simões, Tânia Simões, Paulo Gaudenzi e Antônio Carlos Magalhães.
A FAMA EXPLODIU EM 1980
Embora estivesse, desde 1961, à testa do tabuleiro, a fama de Dinha somente começou a extrapolar os limites da Bahia a partir de 1980. A clientela de turistas foi multiplicando-se e obrigando-a a formar uma grande equipe de ajudantes, para auxiliá-la na produção dos manjares dos deuses e orixás.
or causa da transformação da Dinha do Rio Vermelho numa celebridade, a profissão ganhou valorização e abriu o caminho para a fama de outras baianas, tais como Cira de Itapuã e Regina da Graça. Com o Rio Vermelho também em evidência, as duas resolveram colocar filiais nesse bairro. Cira escolheu o Largo da Mariquita, mas Regina preferiu justamente o Largo da Dinha, provocando o que a imprensa denominou de “guerra das baianas”.
A polêmica gerada em 1998, pelos jornais de Salvador, ganhou espaço nos canais da televisão, com direito a divulgação nacional. No frigir dos ovos a “guerra” foi ótima para a promoção do acarajé. Dinha, a estrela maior, continuou a reinar absoluta no largo, que passou a atrair um maior número de freqüentadores.
Dinha, a “Pelé das baianas’, que ganhou o Top of Mind Bahia 2002, já levou a massa famosa para fazer acarajés em eventos realizados em quase todas capitais brasileiras. Sempre viajou a convite da Bahiatursa, como eminente representante das baianas. Já esteve também na Argentina, Paraguai, Portugal, Espanha, Itália, Suíça, França e Mônaco. Neste último, o príncipe Rainier foi conhecer o seu tabuleiro, onde comeu um bolinho de estudante. Suas filhas, princesas do Mônaco, degustaram acarajés.
CLÁUDIA, A SUCESSORA
Para dar continuidade à tradição familiar, Dinha já está, aos poucos, passando o tabuleiro do Largo de Santana à filha, também nascida numa maternidade do Rio Vermelho, a Aurora Leitão, em 3 de agosto de 1968. Cláudia de Assis, da quarta geração de baianas, já pode ser vista, toda paramentada, no consagrado tabuleiro, onde todas as tardes/noites extensas filas se formam para os disputados acarajés e abarás.
Dinha dedica-se, cada vez mais, à retaguarda, para garantir a aquisição de matérias- primas das melhores procedências e zelar pela manutenção do padrão de qualidade dos produtos da sua grife. Eles saem de uma verdadeira fábrica artesanal que montou numa casa junto ao Largo de Santana, logo na subida da ladeira.
Além disso, administra a Casa da Dinha, inaugurada em 1999, também no Largo de Santana, o quartel-general, onde concentrou todas as atividades culinárias. Trata-se de um restaurante especializado em pratos típicos, com temperos e condimentos exclusivos da Dinha, herdados do receituário da avó Ubaldina.
O MATRIARCADO ASSIS
A família Assis possui uma particularidade especialíssima. É um clã onde a mulher tem sido soberana, com a marca registrada de uma fibra inquebrantável. Ao homem foi reservada a função de ator coadjuvante, para não dizer que seu papel é, exclusivamente, garantir a renovação feminina, sempre com o sobrenome Assis.
Dinha, líder do reinado mais longo, não conseguiu fre-qüentar escolas, pois teve de começar a trabalhar aos sete anos, na cozinha da casa e no tabuleiro do largo. Mas sua filha somente entrou na vida laboriosa após ser diplomada em ciências contábeis, na Faculdade Visconde de Cairu.
Talvez Cláudia seja a primeira baiana com curso superior. O doutorado cumpriu na faculdade dos acarajés e abarás, dirigida pela mãe, a Dinha do Rio Vermelho, a Dinha do largo do Rio Vermelho, a Dinha símbolo do Rio Vermelho, a Dinha capa da Revista do Rio Vermelho.
Fonte: Jornal A Tarde
Texto: Ubaldo Marques Porto Filho